mangas.

por em Textos

Domingo, 16h30. Rodoviária do Tietê.
Desembarca, diretamente de Livramento de Nossa Senhora na Bahia, seu Nilson, meu avô.
77 anos, uma camisa bonita, talvez o único fruto que restou da sua vida inteira trabalhando como alfaiate em uma dessas lojas de Shopping. Passou a vida fazendo terno e eu, em 28 anos, nunca o vi vestindo um. Ainda bem, já sabemos que devemos ter um pouco de receio dos “enternados” na sociedade.
Depois de 24 horas dentro de um ônibus, ele desce. Já com os músculos flácidos e falta de viço, ele carrega duas malas pequenas e pesadas.
Ele já não escuta bem, atendeu a porta de casa e disse que a Amada estava lá fora. A Mara.
Orgulhosamente, como uma criança que espera a meia noite para abrir os presentes (ainda que, diante da sua pobreza, ele não deve ter essa referência típica de classe média), ele abre sua mala na cozinha, enquanto a família toda está ao redor para ver o que ele traz da sua terra. Porque São Paulo não é terra.
Ele começa trazendo um pacote que deve pesar uns 3 quilos. É um pedaço de boi. Ele me conta que tinham matado o boi na tarde anterior e trouxe para fazer carne de sol, também conhecida como carne do sertão.
Em seguida, desembrulha os biscoitos de polvilho. O quilo de farinha boa que não tem marca. Melado. Queijo. Doce. E mangas. Quem nunca comeu a manga da Bahia, trago uma boa notícia, ainda tem um prazer não vivido e que te espera logo ali.
Até coentro ele trouxe, pra dar aquele cheiro no frango e na abóbora.
E se vocês se perguntam se não tinha cocada, tinha sim, tinha muita cocada. Branca, marrom e preta.
Quando pequena, num lugar chamado Tabuleiro que o Google Maps ainda não encontrou, visitei minha Bisa Maria. A casa dela não tinha janela, só uma cortininha. Roça sem rua, nem endereço. Lá o endereço é assim: a casa da dona Maria. Não precisa de mais nada.
Não tem nome de rua, tem nome de gente que mora.
Lá na casa da Bisa tinha um armário cheio cheinho de cocada, que era proibido mexer. Ela era a rainha da cocada preta e decidia a hora boa de comer aquele doce que ela fez com as próprias mãos.

A Bisa sabia que a vida é bem assim, a gente não pode ter açúcar a hora que quer.
Meu vô cresceu assim. Sem endereço, sem casa, sem terno, sem pacote.
Fico aqui imaginando que ele não ia entender nada se eu falasse que a manteiga Aviação que é a boa. Seria uma decepção, e ele pensaria que eu vivi até aqui sem entender nada de nada.
Eu tenho certeza que meu vô nunca comeu gorgonzola. Não sabe nome de restaurante e diz que tá com o pé na cova.
E já se preparando para a morte, ele cruza o país inteiro trazendo manga fresca da Bahia pra partilhar com quem não tem.
Agradeço a ele por me lembrar das pequenices importantes e por me fazer botar o pé no chão e na terra de novo.

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