por aqui, tudo caminhando

por em Textos, Viagem

Faz algumas semanas, a Bru me convidou pra escrever aqui. Fiquei gastando um tempo pensando em como começar, se eu deveria me apresentar…  Resolvi que o melhor seria começar do meio mesmo. Sem explicação, sem muito contexto. Jogando, aos poucos, mais pistas. O que é necessário saber: estou há dois meses em Montevideo, depois de meses muito, muito doloridos (parece que 2016 foi assim mesmo, né?). Estou num relacionamento aberto com meu doutorado há dois anos, mas não sei ser monogâmica com qualquer coisa que envolva criatividade ou produção novas idéias.

 

Cecília Bonilla - Fantasies of Liberation- hires-2
Cecília Bonilla, Fantasies of Liberation
Uruguay:
por aqui, tudo caminhando. A viagem está sendo muito mais intensa do que imaginei. Pensei que seria um momento de descanso, brisa, calmaria… Doce ilusão! Cheguei numa Montevideo muito fria, cinza, chuvosa e com rajadas de vento horríveis. Fui, literalmente, recebida por um ciclone extratropical.
Ainda por cima, me instalei numa casa muito fria, num bairro meio afastado, sem muita privacidade. E esse clima acabou me moldando completamente. Passei as primeiras semanas aqui num processo de hibernação, com  muita introspecção e melancolia. Passar tanto tempo comigo mesma conduziu minhas reflexões para as necessidade falsas tenho acumuladas – a pior de todas, uma busca por auto-disciplina que aprisiona – e quão longe eu estou de mim mesma, porque tenho dificuldade em identificar minhas necessidade reais. Quando penso que estou conseguindo enxerga-las, alguma distração vem e fica tudo nebuloso.
A boa notícia é que o Sol apareceu junto com a chegada da primavera e as coisas começaram a ficar mais gostosas! Achei uma casa nova e me mudei na semana passada. A dona se chama Maria Paz e tem uma filha linda chamada Amambai! Nós temos uma busca pela liberdade feminina muito parecida e sinto que as duas – Maria Paz e Amambai – vão ser mestras muito importantes durante as próximas semanas. O bairro é uma delícia, as janelas das casas são lindas com venezianas enormes e as crianças jogam bola na rua no final do dia. Tudo isso me alimenta de uma leveza que eu sempre olhei de longe, mas nunca aceitei. Talvez essa seja uma necessidade real e uma grande escassez minha: a leveza.
O curso está sendo muito bom e desafiador! Estou conseguindo enxergar minha pesquisa de outros ângulos e re-organizar minhas idéias. Principalmente, vejo que será impossível recomeçar de onde parei, antes da minha separação. O meu projeto de pesquisa foi construído dentro de um projeto de vida que não existe mais. A minha visão de mundo, a forma como construo idéias novas e leio o mundo ficaram para traz. É difícil admitir, mas talvez seja também o fim de um ciclo no Jalapão – essa linda história de amor, meu maior orgulho. Tenho tido vontade de construir novas discussões, entrar no campo da relação entre arte e ciência, como isso se relaciona com sustentabilidade e pesquisa transdisciplinar. Mais uma vez, fazer da teoria, prática e ação. Negando a fragmentação dos saberes e conhecimentos, construir algo novo. Esse seria um desafio enorme, porque quase ninguém fala sobre isso. Mas é como se eu conseguisse ouvir o mundo pedindo (isso já aconteceu outras vezes, foi assim que tudo começou no Jalapão) e eu não consigo dizer não a esses chamados.
Sempre busco me conectar com as pessoas que eu amo. E com as pessoas que eu ainda quero amar. Visualizo o rosto de cada um e desejo felicidade.

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1 comentário

  1. Marcia SRViana

    Well, here´s an intelligent lady, whose life is a road of new lives. Each new step implies in change. How good are changes! Your Jalapão is my Guarany friends, they must change, but don´t have to be abandoned. They are part of our lives, new and old all the way through your ever changing road. I´m very happy to learn something of your inner life, hoping to read more about this new you.

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