¿Que deseas de mi?

por em Textos, Viagem
Foto: Julián Dura
Foto: Julián Dura

– Falta pouco para eu ir embora.

– ¿Você está feliz em voltar?

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– É a primeira vez que eu não vou voltar pra ninguém.

– Você vai voltar pra você.

(Montevideo, naquele bar antes do Bluzz. Out 2016)

 

Ultimamente, tenho tido preguiça de entender por que gosto das coisas que gosto; por que me aproximo mais de algumas pessoas e me afasto de outras. Só sei que algumas situações me emocionam, outras não. E eu prefiro sentir emoção. Aqui em Montevideo, tenho me sentindo constantemente muito emocionada. Geralmente, jogando conversa fora – entre una cerveza y otra – de forma muito sutil e delicada, as pessoas me levam longe, muito longe. E me desconstroem.

Fui ao teatro um dia desses, assistir a uma peça com pinta réee fuerte: “OrgiaMe, la depravación del yo”, era o nome. Belo convite. Dessas peças com platéia formada por poucas pessoas, espalhadas num quarto grande. Uma cama, uma cômoda, espelho de moldura vermelha e um ator. “¿Que deseas de mi?, ele pergunta para a platéia. Olhos nos olhos, rostos quase colados.

Fiquei 10 anos com uma pessoa só. 10 anos muito intensos porque a gente se emocionava muito juntos. E isso, por este tempo, bastou. E foi verdadeiro. Foi gostoso. E também teve um preço. Tanto tempo olhos nos olhos, com o rosto colado a uma só pessoa, dizendo e re-dizendo ¿que deseas de mi?, pode silenciar a nossa capacidade de fazer o mesmo desafio para o resto do mundo. E, principalmente, de se olhar no espelho e se fazer essa mesma pergunta. Ousar ouvir a resposta. ¿Que deseas de mi?

Hoje, eu desejo la depravación del yo. E isso começa com uma deselegância necessária. Volto atrás o pedido de permissão e torno pública parte de uma história. Seu fim. Porque pedir permissão custa desviar do meu próprio olhar quando me encaro no espelho. E isso não é aceitável. Então aqui vai. Com muito carinho por tudo o que sou e o que fui. O fim de uma história de amor. Que sempre tem dois lados. Esse é só o meu.

 

Aqui, mais sobre o trabalho do Julián Dura:

http://www.juliandura.com

E mais sobre a peça:

 

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