despedir-se de Montevideo: uma tristeza agradecida

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Jacinto Vera, MVD
Jacinto Vera, MVD

Doeu ir embora. A dor de uma tristeza agradecida. Palavras da dona da casinha em Jacinto Vera – Montevideo – que me acolheu, abrindo sua vida da forma mais linda e generosa possível.

Quando uma viagem é tão significativa e intensa, a despedida custa. Mas o ritual de fechamento é sempre necessário: deixar uma história terminar para que outras comecem.

Resolvi começar pelos meus lugares preferidos, pela minha rotina. Voltei mais uma vez ao Museu Nacional de Artes Visuales e ao CdF; fui dia-sim, dia-não ao Mercado Agrícola; estudei uma última vez no saguão da Biblioteca Nacional; fui domingo de manhã na Tristan Navarja; caminhei pelas ruas onde os meninos ainda jogam bola no final do dia. Desejei bem baixinho que eles cresçam fortes e felizes.

Aos poucos, fui percebendo que o mais importante não era a despedida em si, mas agradecer de forma sutil e sincera aqueles que abriram as suas vidas para mim e se interessaram pela minha. E isso foi acontecendo de forma bem natural, sem muito planejamento:

Acompanhei a faxina dele durante o atardecer, tomamos cerveza. Agradeci.

Fiz risotto para elas, tomamos vinho e, então, descobrimos que éramos todas filhas das mesmas mães. Agradeci.

Fomos ao Parque Rodó e a pequena não queria saber de despedida. Ficou brava comigo. Voltamos para casa e fizemos as maletas juntas. Eu a agradeci por ter divido sua casa e sua mãe comigo naquelas meses. Ela respondeu: “Gracias a ti, Rebeca”. Nunca senti um agradecimento tão sincero na minha vida.

No meu último dia no Uruguay, fomos a Neptunia – costa do rio de la Plata. Choramos juntas, nos abraçamos muy fuerte. Tive a certeza que nunca mais poderia oferecer ao mundo nada menos que a minha própria natureza. Desejei isso para elas também.

Às três da manhã estava pronta para o vôo. E, como que em um sopro, estava de volta à São Paulo.

Fiquei dias e dias flutuando, como se estivesse entre dois mundos. Sem conseguir trabalhar, sem concentração, sem a menor condição para as coisas práticas da vida (minha especialidade!). Fui buscar ajuda com uma sábia francesa, osteopata, que já havia me resgatado anteriormente. Ao final da sessão, ela me disse: “fica tranquila, Rebeca, até segunda-feira você estará de volta ao mundo dos vivos.”. Eu dei risada. Ela continuou, séria:  “Você foi para o Uruguay viver o seu luto. Já passou. Mas, agora, precisa de uns dias pra descansar, arrumar o seu ninho de novo e, aos poucos, estará volta entre nós novamente…” 

[…]

Um dia antes de chegar em Jacinto Vera, esse foi meu deseo, anotado num caderninho:

Se eu pudesse fazer um desejo para esta viagem seria que eu voltasse com mais consciência dos meus bloqueios, das minhas dores. Que eu volte plena da minha beleza essencial. Que essa beleza seja doce e se manifeste em generosidade, para mim mesma e para o mundo. Que eu volte forte para mergulhar. Que eu volte nutrida de simplicidade. Que eu volte sem medo e confiando no que a vida tem para me oferecer. Quero estar à disposição da vida.

Assim seja. Assim foi.

Gracias, Uruguay.

 

 

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