a melhor crise da minha vida.

por em Geral, Textos

Há alguns meses eu literalmente acordei e pensei – chega. Depois de quase 10 anos trabalhando com carteira registrada e tocando um projeto meu que parecia um sonho. Eu estava feliz. Mas algo precisava mudar. Senti uma urgência de vida.

Senti que tudo que eu estava planejando há muito tempo poderia não acontecer. Eu deveria experimentar soltar a rédea. Foi bem numa semana que comecei a ler uma onda de posts do tipo- fulano largou tudo e foi viajar o mundo – e aquela chuva de opiniões na internet – hipsters, filhinhos de papai e todo aquele circo-tribunal que a internet tanto gosta.

Tudo bem, eu sempre penso que precisa ter muito dinheiro para largar tudo. Por outro lado, eu não sei absolutamente nada da vida dessas pessoas, assim como poucas sabem da minha. E além do mais, largar tudo é um termo bastante ruim.

É recomeçar do zero. Quando criei a Samambaia em Curitiba, eu trabalhei muito, levando ao mesmo tempo um trampo fixo e a programação da casa. Achei que poderia duraria anos. Mas não me doeu nada desmontar o castelo de areia. Senti que eu estava chutando tudo. E quem é que nunca teve um prazer em fazer um castelinho de areia e destruir depois? É uma delícia. Porque a gente sabe que, se quiser, faz um castelo ainda mais bonito na praia seguinte. Com uma areia mais firme, talvez.

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Vendi todos os meus objetos e resolvi ir pra São Paulo com poucas coisas e o dinheiro que consegui com as vendas. Imediatamente comecei a trabalhar e a gastar meu dinheiro que nem água. Apesar disso, eu me sentia bem na nova cidade, estava rodeada de pessoas incríveis e conhecendo a cada semana mais e mais pessoas maravilhosas. Mas eu me sentia cansada. Em 30 dias, fiquei doente duas vezes e em uma fui parar no hospital com infecção respiratória.

 Aí resolvi escrever um e-mail para minha mãe, fazia tempos que eu não me abria com ela. E relendo este e-mail de alguns meses atrás vejo o quanto eu me sentia perdida, porém, perto de encontrar um caminho.

título: o que você acha? estou louca ou isso é normal?

oi mãe, tudo bem? faz tempo que não te escrevo e-mail. outro dia estava lendo uns e-mails nossos antigos…muito legal. e também muita bobeira, porque eu quando dou pra azucrinar, senhor. mas até que faz tempo. aí você diria- isso mesmo, você já tem quase 30, não combina. e é verdade.

às vezes, eu sinto que vou ser sempre meio nem aí, meio irreverente. às vezes, acho que a maturidade vai chegar e vou ficar meio durinha. mentira, isso não vai acontecer.
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bom, de forma geral, eu não concordo com nada. com o jeito que as pessoas vivem, com as relações na sociedade, com o jeito que pensamos em dinheiro…
claro que tento manter o equilíbrio. não tenho vontade de viver isolada. mas, de fato, as estruturas de trabalho têm me deixado inquieta.
e não é uma questão que eu não goste de nada. pelo contrário, eu amo trabalhar. gosto de muitas coisas: criar projetos, ideias para as cidades, ideias que unam as pessoas, gosto de arte, de cultura, de escrever, escrever, escrever.
eu acho que ainda não ganhei dinheiro pra sobreviver paralelamente por falta de tempo. não sei.
tenho muita vontade de viajar. não tenho filhos, não tenho namorado e nem um emprego que eu ache foda. ou seja, tenho tudo e tenho nada.
então, estou aqui pensando – eu vou pedir demissão e vou ficar meses fora.
meus planos são:
primeiro, ir pra uma fazenda em Minas ao lado de Inhotim, onde tem um projeto de uma residência artística. o que quero fazer lá: ficar de graça no lugar enquanto ajudo a dona a montar o plano de comunicação, marca, planejamento, etc.

depois, sei lá. estou com muita vontade de fazer isso. eu poderia criar tantas coisas.

a rotina me detona.
eu AMO são paulo e ficaria aqui tranquilamente. mas só se eu achar um equilíbrio entre um trabalho que absorva minhas habilidades e que eu possa ser um pouco feliz. 
enfim…é isso que tenho pensado. mas eu não sou tão louca, então também não quero que isso soe como um rompante.
por esse motivo, quero sua opinião.
theo gosselin
theo gosselin
> (dias depois)
depois disso, eu pedi demissão, peguei minha mochila e vim aqui para o meio do nada, a 10KM de Inhotim, junto com uma amiga.
ficamos sozinhas aqui o tempo todo. produzindo e nos conhecendo. percebemos, que por exemplo, sempre bate a culpa de não saber o que fazer nos próximos 15 minutos. estamos programados para fazer. produzir. queremos estar sempre distraídos.
na primeira semana a gente simplesmente trocou a cidade pelo campo. continuamos sentadas no computador, trabalhando horas a fio. com a diferença que a gente cozinha tudo o que come, dá uma dormidinha na tarde às vezes e conversa. tudo bem, isso já é bom. mas para se reprogramar ainda falta muito.
> (dias depois)
o trabalho aqui já está no fim e eu não tenho a menor ideia do que vou fazer. talvez eu vá pra outra cidade, estou olhando o Work Away e vi que posso trocar acomodação por serviço em cada lugar. também estou de olho em algumas vagas legais, estou me colocando à disposição para freela, estou vivendo. talvez eu me foda bem grande. talvez não. já pensou que bom se dá certo? e  o que seria me foder? ficar endividada.
 
> (meses depois)
eu achei um vôo barato pra Espanha que parava na Turquia. Ida e volta saiu 1.200 reais. Estou há algum tempo em Granada, e daqui ainda vou visitar alguns amigos na França e em Portugal. Depois, vou pra Califórnia fazer um trabalho em troca de casa.
Me reapaixonei pela minha profissão. Tenho trabalhado para o Brasil com freelas como redatora e com projetos.
Lembrei que para escrever, precisamos de vida.
Tenho tempo livre para caminhar na cidade, encontrar as pessoas, trabalhar, fazer coisas legais, aprender coisas novas. E gasto menos do que eu gastava antes.
O mundo tem muita abundância, de comida, de espaço, de amor.
Claro, existe um preço a se pagar por tudo isso.
Mas no final, a vida me parece meio isso: qual luta você quer lutar? Qual preço você prefere pagar pela sua escolha? Eu prefiro um preço que não venha em boleto.

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1 comentário

  1. bebel

    Inspiradora. Desejo Sucesso, hoje e sempre, de quem, de longe, admira!

    “prefiro um preço que não venha em boleto.”

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