sobre Bowie e a rara chance de dizer adeus “com calma”

por em Geral
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cena de C.R.A.Z.Y. (2005)

(texto publicado em 11/01/2016, na minha linha do tempo do Facebook) 

O Bowie e o meu pai têm tanto a ver um com o outro quanto, digamos, o Ceará e a Inglaterra. Ou seja, nada. Quer dizer, quase nada. Os dois morreram de câncer.

Do ponto de vista que eu tenho, o da família de alguém doente, posso dizer que o câncer é uma doença horrível, que vira a nossa vida completamente de ponta cabeça. Faz a gente assistir quem amamos indo embora com muita, muita dor.

Mas, também, tem uma coisa muito louca que acontece no estagio final da doença. A gente percebe que a pessoa vai morrer. E quem tá doente também percebe que vai morrer. E isso pode dar início a um processo de despedida tão difícil quanto extremamente bonito. Foi o que aconteceu com o meu pai, comigo, minha irmã e minha mãe. De repente, deu o clique. E aí, todo o nosso esforço por buscar terapias mais avançadas, médicos gabaritados etc se voltou para aproveitar os nossos momentos juntos. E dizer adeus.

Meu pai começou a nos preparar para a vida sem ele. E esse foi seu último grande ato.

Da mesma forma, Bowie preparou o mundo para a sua despedida. Um grande ato final: Blackstar. Obrigada pela sua generosidade, Bowie.

E para quem estiver passando por isso hoje, assistindo uma pessoa que ama muito ir embora com câncer: respire fundo, sinta a sua dor e nutra-se de coragem e carinho. Essa pode ser uma rara oportunidade de dizer adeus com calma.

“I’ve got scars that can’t be seen. I’ve got drama, can’t be stolen. Everybody knows me now. This way or no way, you know, I’ll be free. Just like that bluebird, Oh I’ll be free.” (David Bowie, Lazarus – Blackstar, )

Meu pai e suas meninas; sorrindo pra minha mãe
Meu pai e suas meninas; sorrindo pra minha mãe

ps: pra mim, a melhor cena com trilha do Bowie é essa aqui de baixo que está em um dos meus filmes preferidos: C.R.A.Z.Y

 

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