De peito aberto: Karla Keiko e o arrependimento de ter colocado silicone.

por em Geral

A maioria dos cirurgiões plásticos são homens e isso não me parece uma mera coincidência. São homens e mais homens dizendo como é que um corpo deve ser. Tem medidas exatas, tamanhos ideais e cores almejadas. Quantas histórias já escutei sobre médicos que dizem para as pacientes que as próteses devem ser maiores do que as desejadas, “para ficar proporcional”. Proporcional para quem?

Já escutei histórias de gente que pediu um determinado tamanho de prótese, e na hora da cirurgia, quando a mulher está sedada, o médico decidiu que deveria colocar mais. Seios pequenos demais para quem? 

Essa também é a história da artista (e amiga) Karla Keiko, que resolveu mergulhar nesse assunto doloroso e repensar na sua relação com o silicone.

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Imagem do Filme Pendências – Karla Keiko, Sara Bomfim e Rafael Bertelli

Aos 21 anos, no dia 30 de março, Keiko acordou da sua primeira cirurgia. Ela confessa que tomou a decisão em um dia ruim, em que se sentia mal, provavelmente porque não encontrava um biquini que coubesse nos seus seios pequenos. Ela não teve o tempo de pensar e foi influenciada, como a maioria das jovens. (Aliás, jovens cada vez mais jovens optam pela cirurgia. O critério para a colocação não é a idade, e sim o desenvolvimento da mama. Aos 16 anos já tem muita menina saindo das clínicas com novas próteses).

Para Keiko, as consequência do ato impensado veio rápido: as próteses se deslocaram em menos de um ano. Dor. Incômodo. Arrependimento. Dois anos depois da primeira cirurgia, ela passou por uma reconstrução nas mamas e pediu para diminuir as próteses. Quando acordou, tinha 100 ml a mais do que pediu. 

Peito natural, peito grande siliconado, peito deslocado, peito reconstruído. Keiko nunca gostou de tocar no assunto que faz o peito arder. Desde sempre, sente dores, incômodo e desgaste emocional. Ela perdeu parte da sensibilidade nos seios e diz que cada vez que abraça alguém, sente que uma bola a separa de uma profunda conexão. Até que no ano passado, ela começou a fazer parte do grupo de mulheres artistas Memórias Inventadas, liderado por Nicole Lima. No início do grupo ela não sabia sobre qual tema desenvolveria um trabalho, até que a conversa com as outras mulheres a fez perceber que o silicone era uma grande questão. Segundo Keiko, foi difícil assumir que algo estava errado.

Desde que iniciou o seu trabalho, a artista escutou diversos relatos de outras mulheres. Muitas não falam sobre isso e se sentem feridas. Enquanto outras, se sentem bem com a escolha (que bom!).

Mas a pergunta fica, as cirurgias estéticas são esteticamente melhores para quem? Sempre estamos inadequadas. Muito pêlo, pouco seio, muita bunda, dobras em excesso. E para quebrar tudo isso, Keiko se prepara para se despedir da sua prótese no dia 04.05.2017. Pronta para a terceira cirurgia, ela se prepara também para vivenciar o quinto estado do seu seio. E que as próximas mudanças venham naturalmente com o tempo.

Como processo de transformar a dor em arte, Karla produziu o filme Pendências (em conjunto com Sara Bonfim e Rafael Bertelli) na residência 20 Minutos.Mov, e além disso, em 2018 vai participar de uma exposição coletiva com o Grupo Memórias Inventadas sobre a mesma temática.

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Imagem do Filme Pendências – Karla Keiko, Sara Bomfim e Rafael Bertelli

Quem quiser assistir o filme e discutir sobre o tema (em Curitiba), a Karla vai abrir as portas da casa dela no dia 30, confere o evento aqui.

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ps: recomendo que assistam o documentário do Netflix To Be a Miss, que escancara sobre a máfia da indústria da beleza na Venezuela, onde meninas são encaminhadas para clínicas para realizarem cirurgias plásticas para continuarem no processo de seleção de Miss.

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