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Buscam-se artistas para devolver vida ao campo.

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 – Tradução livre do artigo publicado na Equal Times.

 Artista Lucía Camón caminhando pelas ruas de Torralba de Ribota com a vizinha Pilar Sos. Foto: Roberto Martín - Retirada do site Equal Times
Artista Lucía Camón caminhando pelas ruas de Torralba de Ribota com a vizinha Pilar Sos. Foto: Roberto Martín – Retirada do site Equal Times

Em apenas 50 anos, quase 400 pessoas se foram. Não por consequência de uma catástrofe natural, mas sim, de uma promessa de um futuro melhor que esvaziou o campo e apagou as vozes da escola. Hoje, Torralba de Ribota poderia ser um entre os milhares de povoados condenados ao esquecimento graças ao êxodo rural. Mas não foi assim. A arte o salvou.

Este pequeno município da província de Zaragoza na Espanha resiste há anos com pouco mais de 100 habitantes, a maioria pessoas muito mais velhas. No entanto, desde 2012 suas velhas casas abandonadas começaram a ser ocupadas por vizinhos que vieram da cidade: uma poetisa, um desenhista, uma professora de teatro, um pintor, um fotógrafo. Uma pequena comunidade de artistas que apostou no mundo rural para seguir criando, e com isso, tentar aliviar uma das enfermidades crônicas do século XXI: a despovoamento.

Atualmente, mais da metade da população mundial se concentra nas cidades, enquanto os campos vão ficando desertos. Somente 23% dos europeus vivem nas zonas rurais e a perda de habitantes se acentua em países como Itália, Portugal ou Espanha. Em uma recente pesquisa da Federação Espanhola de Municípios e Províncias (FEMP), calculou que a metade dos povoados espanhóis hoje se encontra em perigo de despovoamento e abandono.

“A cultura gera ideias, é movimento, é vida.”, defende Lucía Camón, que promove a plataforma cultural Pueblos en Arte, uma iniciativa que pretende gerar uma ponte entre o campo e a cidade.

Seu objetivo é transformar Torralba de Ribota, e em geral os povoados dessa região, em um pólo de atração de artistas. Para alcançar esse objetivo, organizam cursos, exposições, projeções de cinema e também oferecem aos criadores uma residência artística onde possam buscar suas inspirações rodeados de silêncio. Uma vantagem que já foi descoberta por Dalí, Lorca, Machado, Rimbaud ou Choping. Algumas das melhores criações nasceram em uma casa de campo.

“Como lugar de produção é perfeito”, insiste Lucía. Essa poeta e videoartista trocou as ruas de um bairro moderno em Malasaña, em Madrid, pelas montanhas de Armentes. Veio com seu companheiro, o desenhista Alfonso Kint, e sua filha pequena. Ambos reconhecem que não foi fácil no começo. “Antes de mudar para o campo tem que pensar muito bem em como vai ganhar a vida e saber que aqui as coisas sempre são mais lentas. No começo você se encontra muito isolado, especialmente porque as prefeituras não costumam apoiar pessoas jovens que chegam com ideias. Isso significa que você tem que investir toda a sua energia para levar seu projeto adiante.”

Apesar das dificuldades, nesses 5 anos impulsionaram uma lista grande de atividades, envolvendo toda a comunidade nativa. “Eu vou em tudo que eles fazem”, afirma Pilar Sos. Com 87 anos, é uma das vizinhas mais antigas. Pilar ainda se lembra com sabor agridoce como todas as suas amigas de infância acabaram indo para Zaragoza ou Madrid, e relata também que pouco a pouco se deixou de ouvir no campo as canções dos agricultores.

“A vila mudou muito, por isso estou muito feliz que esses jovens estejam aqui. Agora todo mundo está mais animado. Penso que se eles não tivessem vindo, a vila estaria morta“. Sete casas já foram vendidas desde que a arte veio habitar as ruas estreitas de Torralba de Ribota.

Colônias de artistas na Itália e em Portugal

Segundo a Comissão Européia, 22% das pessoas que habitam a zona rural de Portugal, Grécia, Espanha ou Itália são aposentados de idade avançada. No centro de Favara, pequena cidade localizada no sul da Sicilia, só restavam quatro vizinhos. O centro histórico estava desmoronado e meio abandonado, até que em 2012 chegaram Florinda Saieva e Andrea Bartoli. Para a surpresa das quatro anciãs que ainda moravam por ali, esse casal de artistas sicilianos conseguiram transformar Favara em um centro de produção artística famosa em toda Itália.

Com o apoio de vários amigos do mundo da cultura, eles conseguiram reconstruir boa parte das casas e converter a cidade em um imenso espaço de criação chamado Farm Cultural Park.

Além dos novos artistas residentes, o projeto recebe a cada ano centenas de visitantes que buscam passear entre os murais e obras de arte contemporânea ao ar livre.

Cristina García Rodero > retirada da página Pueblos En Arte
Cristina García Rodero
> retirada da página Pueblos En Arte

Outra experiência bem sucedida é a da Aldeias Artísticas, em Portugal. Em desenvolvimento desde 2014, a iniciativa acontece nos pequenos vilarejos que rodeiam o município de Castelo Branco. Casas se tornaram residências para criadores de todos os tipos de disciplinas (arte urbana, ilustração, desenho gráfico, fotografia, artes cênicas). Durante sua estadia, os artistas vivem em contato com a comunidade local e dessa união e intercâmbio de experiências surgem novas obras que são expostas no próprio lugar.

Existem muitas outras iniciativas similares na Irlanda, Bulgaria, Bélgica ou Reino Unido. Existe ainda um projeto internacional, ainda em fase de investigação, chamado “Global Arts Village” , em que se busca criar uma rede de intercâmbio entre artistas rurais de todo o mundo.

Um investimento econômico

Apesar dos cortes sofridos durante o período de crise, a cultura segue sendo um motor econômico com possibilidade de devolver a atividade aos núcleos rurais assolados pelo desemprego. Com esse argumento, os criadores pedem mais facilidades. Desde pedir ajudas específicas para desenvolver atividades culturais em entornos pouco habitados, até proporcionar um bom acesso a internet nesses lugares tradicionalmente desconectados. No caso da Espanha,  30% de los municipios ainda não tem acesso a velocidades acima de 10 Mbps.

“A cultura é um dos investimentos mais baratos que existem. Com o que se gasta uma prefeitura para contratar uma orquestra ou em arrumar uma rua, é possível manter atividades culturais durante todo o ano”, diz Lucía Camón.

“Não tem que investir somente em infraestruturas, tijolos não geram nada. No entanto, se você faz com que coisas interessantes aconteçam no campo, as pessoas virão. O problema é que algum desses lugares têm assumido em seus corações que vão morrer, assumiram sua derrota”.

Frente ao recente alarme social gerado pelo despovoamento, os criadores propõem a arte como semente para fazer crescer sangue novo em territórios estéreis. No fim, a cultura sempre foi a raiz do mundo rural. Cultura vem do verbo em latim colere, que significa cultivar.

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