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Madurez – Por Rafael Bahia

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Existe um pomar do outro lado da cerca. Se você se esgueirar por debaixo do arame farpado, consegue chegar lá sem muita dificuldade. Quer dizer, além da urticária que a grama causa em contato com a pele. A coceira só vai atacar mesmo bem às oito da noite, na hora do banho.

Da última vez, era começo de inverno quando nos rastejamos para o vizinho. Catamos limão-cravo do pé. E mexerica. E maracujás que ainda davam flores roxas e lindas. E uma frutona que parece toranja, mas até hoje não sei o que é. E cortamos cana morrendo de medo dos escorpiões iguais àquele que apareceu no meio do quarto, perto da cabeceira. Ele era cor de âmbar e parecia muito maior do que seu tamanho. Talvez fosse meu medo. Pisei nele com força e, pronto, estava esmagado. Muito mais fácil matar um escorpião do que eu jamais pensei.

O negócio é que as frutas estavam todas verdes e jogamos elas de volta para o outro lado da cerca. Assim o desperdício era menor, porque elas viravam adubo dos seus próprios pés. Quase canibalismo, se você parar para pensar.

Naquele dia, eu tinha acordado às cinco da manhã com indigestão de São João. Levantei da cama, passei café e ainda esquentei leite. Saí de caneca na mão para pisar na grama orvalhada. Era tão frio, mas era ainda mais gostoso sentir as gotículas perfeitas se desfazerem sobre as minhas pisadas. Atrás de mim, um rastro verde entre o gélido esbranquiçado da madrugada. Eu me sentia andando na neve, mas era só o interior de São Paulo. Os dedos do pé congelados ainda assim.

Olhei para o lado de lá da cerca e o mesmo pé de limão-cravo acenava para mim. As frutas bonitas, laranjas, mais vistosas ainda com a luz amarela do nascer do sol. Fiquei contemplativo, meio Denise Fraga na coluna de domingo. Achei que as coisas eram assim, de repente não estavam mais verdes quando a gente menos esperava. E tudo tinha mudado. Elas loucas para ser colhidas. Eu nem aí. Porque era junho e eu não queria mais suco. E também o limoeiro ficava tão bonito daquele jeito, apinhado, uma árvore de Natal à brasileira. E tem outra coisa. De repente, os limões também estavam me olhando por entre os fios de arame. E deviam estar pensando: olha só ele, tão mais bonito assim depois de amadurecido.

 danae moon
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>< Colaboração de Rafael Bahia

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por em Geral, Textos

Há alguns meses eu literalmente acordei e pensei – chega. Depois de quase 10 anos trabalhando com carteira registrada e tocando um projeto meu que parecia um sonho. Eu estava feliz. Mas algo precisava mudar. Senti uma urgência de vida. Senti que tudo que eu estava planejando há muito tempo poderia não acontecer. Eu deveria […]

Não nasci pra selfie.

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por em Geral, Textos

me olhei no espelho de casa e gostei do que vi. tirei o celular do bolso, liguei a câmera frontal. click. click. click. click. click. click. click. click. a foto ficou ruim. click. click. click. click. click. click. click. click. talvez eu seja meio feia. click. click. click. click. click. click. click. click. vamos tentar […]

¿Que deseas de mi?

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por em Textos, Viagem

– Falta pouco para eu ir embora. – ¿Você está feliz em voltar? [cara de não sei] >> << [cara de ¿por qué?] – É a primeira vez que eu não vou voltar pra ninguém. – Você vai voltar pra você. (Montevideo, naquele bar antes do Bluzz. Out 2016)   Ultimamente, tenho tido preguiça de entender […]

por aqui, tudo caminhando

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por em Textos, Viagem

Faz algumas semanas, a Bru me convidou pra escrever aqui. Fiquei gastando um tempo pensando em como começar, se eu deveria me apresentar…  Resolvi que o melhor seria começar do meio mesmo. Sem explicação, sem muito contexto. Jogando, aos poucos, mais pistas. O que é necessário saber: estou há dois meses em Montevideo, depois de meses muito, […]

mangas.

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por em Textos

Domingo, 16h30. Rodoviária do Tietê. Desembarca, diretamente de Livramento de Nossa Senhora na Bahia, seu Nilson, meu avô. 77 anos, uma camisa bonita, talvez o único fruto que restou da sua vida inteira trabalhando como alfaiate em uma dessas lojas de Shopping. Passou a vida fazendo terno e eu, em 28 anos, nunca o vi […]

armário dos sonhos.

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por em Textos

cada pessoa com quem me relaciono está numa gaveta diferente, sempre foi assim. algumas pessoas se colocam na gaveta lá do fundo, aquela que a gente põe as roupas que a gente não usa muito, mas que podem ser úteis em alguns dias frios. umas roupas meio surradas, mas que não temos coragem de jogar fora. nem […]

diga

diga

por em Textos

tem gente que diz e desdiz. – a palavra desdizer existe, ainda que eu acredite que não seja possível fazer desparecer o que foi dito – e se for pra negar o que disse, melhor falar com as paredes. desdizer, só vale, se for assumimento que disse, mas não queria mais dizer, digo; que mudou de ideia, […]

mentira cara de pau.

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por em Geral, Textos

gosto de imaginar as piores coisas sobre você. me faz bem pensar que você é um merda que eu tive a sorte de me livrar. tenho um poder de acreditar nas minhas próprias mentiras. mas tudo bem, não me sinto só. todos nós criamos uma narrativa que possa fazer algum sentido só pra dizer que […]

resposta.

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por em Abra as mensagens, Textos

você me perguntou como estou, como me sinto. me disse que não encontrou nada por aqui, nesse blog, por isso, queria um e-mail. te respondo por aqui. porque, ainda que eu ou você, um dia, decidamos por apagar e-mails, eu nunca vou deletar um único arquivo desse lugar. já que você perguntou e nossas conversas costumam […]

despertador > por braian boguszewski

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por em Textos

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B de Bruna

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por em Textos

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outro lado

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por em Textos

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